sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

terça-feira, 30 de abril de 2013

O coelho que vê passar os comboios

Lourenço naquela manhã de março estava radiante. O pai e a mãe faziam as malas para passar uns dias fora da cidade, visitar os tios e divertir-se em Vale das Casas. Ligada a ignição, o carro seguiu os sinais e rapidamente circulavam a toda a brida na A1 rumo ao norte. A certa altura, o pai deixou a A1 e encontrava-se a circular mais devagar numa estrada ladeada... de casario, estaleiros, comércios, sucatas. De hora a hora o pai ligava a estação de notícias e lá se iam anunciando medida atrás de medida drástica do governo, da troica, cada qual mais arrasadora que impacientavam a família.
- Este coelho!
Lourenço também não se continha de impaciência e perguntava constantemente porque iam por ali, caminho diferente e mais lento do que o habitual. O pai respondia invariavelmente:
- Para fugir às portagens. Mas não perguntes mais. Põe este CD e houve uma história.
O Vale das Casas era uma terra muito antiga. Ficava muito longe num vale encaixado entre duas enormes montanhas branquinhas no inverno e sempre muito verdejantes no verão. Pelo vale corria um rio de águas cristalinas que saltitavam alegres e puras entre rochas e árvores de grandes ramos. Era um sítio muito sossegado e preferido de melros, pintassilgos, gaios, a bem dizer, de toda a passarada, mas quem mais gostava desse lugar eram os coelhos.
Há muito, muito tempo havia por lá muitas famílias de coelhos. A família do Coelho Dourado tinha as suas tocas na encosta soalheira e facilmente iam petiscar às hortas dos agricultores de Vale das Casas. Arranjavam cenouras tenrinhas, nabos doces como o mel, e outras hortaliças fresquinhas para fazerem os seus manjares.
- Cuidado com os homens – avisava a Coelha Pedrês – temos de ter cuidado com eles se não metem-nos na panela!
- Se formos bem cedo, de manhãzinha, ninguém nos vê. – Respondia o vizinho, Coelho Malhado.
Coelho Dourado e Coelho Malhado eram dois velhos amigos e conheciam o vale como ninguém. Todos os outros coelhos, mesmo os mais novinhos lhe obedeciam pela sua bondade e sabedoria, pois eram muito cuidadosos e sempre dispostos a ajudar os outros.
Certo dia, os coelhos foram acordados por ruídos estranhos e estrondos enormes, mais fortes de que uma grande trovoada. Começaram todos a olhar para um lado e para o outro e avistaram máquinas e homens que manejavam picaretas e outras ferramentas que furavam a montanha. Era primavera. As plantas carregadas de flores eram arrancadas à força pelo poder das máquinas e dos homens. As que ficavam de pé entristeciam perante aquela terrível força. De repente, todos os animais do Vale das Casas se juntaram debaixo do grande castanheiro sobressaltados por novidade tão terrível. Até o lobo, rei daquelas paragens, sentado no alto de um penedo, se lamentava:
- Rasgam a nossa montanha. Que será do nosso vale? Das nossas árvores? Das nossas águas? Vale das Casas vai mesmo mudar. Vai ser um vale de lágrimas.
- Que diz, senhor Lobo Cinzento …? – Perguntou o Coelho Dourado ao lobo, muito admirado com a sua estranha bondade, que era muito temido por todos nas redondezas.
- Digo que os homens chegaram. Vão romper a encosta da montanha e construir uma linha de caminho de ferro que vem da grande cidade.
- Isso é mau? – Perguntou a Coelha Azulada aflita que trazia os seus seis coelhinhos perto de si.
- Depende …. É mau para nós …- Afirmou o lobo com olhar triste e sério.
Lobo Cinzento lembrava-se do que lhe haviam contado uns primos que moravam bem longe dali, do outro lado da montanha. Tinham cortado árvores, nascentes de água, caminhos… Já não podiam circular livremente pelos bosques. Então Coelho Dourado, que ouviu atentamente Lobo Cinzento, tomou a palavra e disse:
- Temos de fazer qualquer coisa.
- E que podemos nós fazer contra a força daquelas máquinas medonhas que revolvem montanhas e rompem rochedos enormes! – Exclamou aflito Coelho Malhado.
- Só vejo uma solução – dizia vagarosamente Coelho Dourado coçando os largos bigodes esbranquiçados – temos de ir falar com os homens.
- Falar com os homens …. – Sorriu e troçou a Raposa Matreira.
Raposa Matreira sabia bem que os homens não eram de confiança, nem de grandes falas, pelo menos para ela. Já muitas vezes a tentaram caçar, mas, como ela é muito matreira, ainda está viva. Sempre os vira com duas pernas a andar: tap, tap, tap, e caçadeiras a dar tiros: pumm, pumm, pumm, a dar tiros, sim, a todos os animais do vale e da montanha.
- Tem razão, Raposa Matreira. – Concordava Lobo Cinzento.
-Há-de haver um … não haverá um homem com quem se possa falar. Eu vou até ao estaleiro deles. Se nada fizermos tapam-nos os caminhos, cortam-nos as águas, as árvores. Como viveremos?
- Vejo que o senhor Coelho Dourado se quer meter mesmo numa panela…. – Gracejava Lobo Cinzento.
Coelho Dourado não ligou. Encheu-se de ânimo e lá foi. Os outros ficaram na encosta receando pelo mal que poderia acontecer ao coelho.
Finalmente Coelho Dourado chegou ao estaleiro das obras e dirigiu-se ao porteiro pedindo-lhe que queria falar com o chefe, o encarregado, o engenheiro. O homem foi muito simpático e indicou-lhe o caminho do gabinete do encarregado.
- Bom dia senhor encarregado.
- Bom dia …. Sr…. Coelho …
- …. Dourado.
O homem sorriu e ficou encantado com o coelho. Era mesmo dourado e observou atentamente a mancha cor de ouro que lhe percorria o lombo e seguia por entre as orelhas esguias até ao focinho.
- Que deseja?
- Bem … nós ouvimos todo este barulho, as máquinas e as árvores a cair …. a água turva no ribeiro …
- Sim, vamos fazer uma linha de comboios muito moderna por onde circularão comboios velozes.
- Claro, mas nós vivemos aqui há muito tempo, não achamos bem. Reunimos todos ali, debaixo do grande castanheiro, e queríamos fazer um pedido. – Disse o coelhinho.
- Então despache-se que tenho pressa. – Respondeu o encarregado com voz forte.
- Têm de nos deixar passagem para passarmos de um lado para o outro da montanha, para o vale, para…
Perante a aflição de Coelho Dourado, o encarregado fez um sinal com a mão e disse-lhe que esperasse ali que ia falar com o engenheiro para ver se seria possível atender o pedido dos animais.
Passado pouco tempo, o encarregado e o engenheiro aproximaram-se de Coelho Dourado e o e engenheiro perguntou:
- Então querem umas passagens para andarem de um lado para o outro? Bem pensado, senhor coelho, bem pensado. – Disse o engenheiro olhando fixamente o coelhinho.
- Então sempre é possível?
- Claro. Fique sossegado. Vamos deixar várias passagens e de vários tamanhos, para coelhos, raposas, javalis, ouriços… toda a bicharada passará em lugar seguro para não atrapalhar os comboios. – Sorriu.
Coelho Dourado agradeceu e saiu dali muito contente e mal chegou junto do grande castanheiro, deu a novidade a todos os animais que o esperavam ansiosamente. Todos admiraram a valentia de Coelho Dourado. Até o lobo.
O tempo passou. Veio o verão, o outono e outro inverno frio e o vale parecia adormecido. Só os homens não paravam. Traziam ferros e madeira, brita, fios e as linhas já brilhavam pela montanha nos dias de sol. Brevemente as locomotivas passariam apressadas a rebocar carruagens e vagões de gente e mercadorias para a grande cidade.
Os anos passaram.
Coelho Dourado e Coelho Malhado são agora os mais velhos de Vale das Casas. Também há cada vez menos pessoas. Os meninos foram todos para a cidade grande. Os velhos perderam o apetite. O lobo já não costuma estar sentado na sua pedra azulada e cheia de musgo macio. Coelho Dourado não desiste e todos os dias dá o seu passeio em segurança até à estação do Vale das Casas.
- Onde vais? – Pergunta-lhe Coelho Malhado.
- Ver passar os comboios. – Responde ele sorridente.
Ambos sorriem, por sentirem que são os únicos que partilham lindas histórias do Vale das Casas.

Campesino Sarças

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Elegia para duas estrelas

Cedo, como quem corta feno antes do tempo, vos apartaram
De nós que, esperando que tarde a nossa hora, choramos.
Mas continuareis aqui

Em cada estrela vizinha
Em cada raio de sol eterno, em cada nuvem passageira
Em cada orvalho transparente, em cada brisa livre
Em cada manhã que raia, em cada tarde lenta
Em cada dia preenchido, em cada noite vaga
Em cada nota certa, em cada silêncio leve
Em cada beijo doce, em cada abraço apertado
Em cada sorriso aberto, em cada gesto pacífico
Em cada passo firme, em cada palavra revoltada
Em cada verdade cristalina, em cada erro desfeito
Em cada multidão distraída, em cada solidão preenchida
Em cada viagem incógnita, em cada encontro inesperado
Em cada certeza maldita, em cada dúvida abundante
Em cada nada imenso.

E ainda que nos peçam um minuto de silêncio,
Por vós,
Nunca nos calaremos, porque o pecado
É o esquecimento.

JM 
31 janeiro 2013

quinta-feira, 24 de março de 2011

AD MORTEM PUGNAREMUS

Tú, que luchas por el bien común no te asustes. ¡No temas! Espere antes. El OLPI & I es una organización que une los pueblos de la Península Ibérica y irlanda brevemente va unirse a los griegos contra los fatoches de la UE, el FMI, y los administradores de los diseños de incógnito y las siglas de otros $ graves. No seas tímido! El pecado es la indiferencia.Teniendo en cuenta los recientes ataques de los "mercados", un eufemismo aplicado a glotones capitalistas, como si los mercados no eran las nuestras, no puede quedarse tranquilo. Lucha como un animal hambriento! No se caza. Esta organización lucha por
- El dinero es de todos, no tiene dueño, color, cara;
- Las líneas de comunicación no tienem dueño, por debajo de la cifra de la Edad Media! Sin embargo, aprendemos en la escuela que el feudalismo fue abolida con la revolución liberal! Grabar en todos los libros que dicen esto o se adhieren a lo que dicen.
- La energia és um bién común de nosotros! Privatizar recogida de basura, maldita sea. Esta misma basura. La línea de tren a ninguna parte!Hombres de poca fe, OLPI & I voy a escuchar!
Ad mortem pugnaremus!

AD MORTEM PUGNAREMUS

Thou a ealaín na coiteann nach maith a dhéanamh agus neart eile. Fear nach! Fan roimhe seo. Is é an OLPI & mé an eagraíocht a aontaíonn an Iberian agus go hachomair na hÉireann páirt a ghlacadh sa cinzentões Gréige i gcoinne an AE, an IMF, agus bainisteoirí na ndearaí incognito agus acrainmneacha eile $ dire. Ná bígí cúthail! Is é an pheaca indifference.I bhfianaise na n-ionsaithe le déanaí ag an "margaí", i bhfeidhm ar a euphemism a gluttons caipitlí, amhail is nach raibh margaí nach féidir linne, fanacht ciúin. An comhrac in cosúil le seachtháirgí ainmhithe starving! Ná bí ag fiach.Troideanna an eagraíocht seo mar gheall ar- Baineann an t-airgead go léir, nach bhfuil aon úinéir, dath, aghaidh;- Na línte cumarsáide a bhfuil unowned go léir, faoi bhun na dola meánaoiseanna! Ach fhoghlaim muid ar scoil go raibh deireadh leis an réabhlóid feudalism liobrálacha! Dóigh i ngach na leabhair sin a rá seo nó bata leis an méid a deir siad.- Is léir Power!Bailiú truflais phríobháidiú, dammit. Truflais seo céanna. An líne iarnróid a áit ar bith!Fir an chreidimh beag, beidh mé ag éisteacht OLPI &!
Ad mortem pugnaremus!

AD MORTEM PUGNAREMUS

Thou who art the common good do not be scared. Fear not! Wait before. The OLPI & I is an organization that unites the Iberian and Irish briefly join the Greek lords against the EU, IMF, and managers of incognito designs and other acronyms $ dire. Do not be shy! The sin is indifference.Given the recent attacks by the "markets", a euphemism applied to capitalist gluttons, as if markets were not ours, can not stay quiet. Fight like a starving animal! Do not be hunting.This organization fights because- The money belongs to all, has no owner, color, face;- the lines of communication are all unowned, below the medieval toll! Yet we learn in school that feudalism was abolished with the liberal revolution! Burn in all the books that say this or stick to what they say.- power is all!Privatize garbage collection, dammit. This same garbage. The rail line to nowhere!Men of little faith, OLPI & I will listen!
Ad mortem pugnaremus!

AD MORTEM PUGNAREMUS

Tu que estás pelo bem comum não fiques assustado. Nada temas! Espera antes. A OLPI & I é uma organização que une os povos ibéricos e irlandês, brevemente aderirá o grego, contra os cinzentões da UE, do FMI, e gestores incógnitos de desígnios $ e outras siglas medonhas. Não te acanhes! O pecado é a indiferença.
Perante os últimos ataques dos "mercados", eufemismo aplicado aos comilões capitalistas, como se os mercados não fossem nossos, não podes ficar quieto. Luta como um animal esfomeado! Não te deixes caçar.
Esta organização luta porque
- o dinheiro é de todos, não tem dono, cor, cara;
- as vias de comunicação são de todos, não têm dono, abaixo as portagens medievais! Ainda nos ensinam na escola que o feudalismo foi abolido com a revolução liberal! Queimem-se todos os livros que digam isso ou cumpra-se o que dizem.
- a energia é de todos!

Privatizem a recolha do lixo, porra. Isso mesmo do lixo. A linha férrea para lado nenhum!

Homens de pouca fé, a OLPI&I ouvir-se-á!

Ad mortem pugnaremus!

sexta-feira, 4 de março de 2011

Outra ode

Ouve os sons não importa quais e inventa olhares
que tragam trigo e águas sóbrias
Olha os tempos que vêm e aprisiona com palavras o teus ideais
ciente duma verdade universal solta-lhe as amarras
Sente os buracos do caminho sendo longo tanto melhor
e aproveita a viagem que a invenção te oferece
Respira os odores breves reminiscências duma natureza
que vai e vem indiferente à forma por isso livre
Arranja dentro de ti calma e imaginação e sem preconceitos
enfrenta os desafios que a liberdade te oferece
E mesmo discutindo a beleza governarás o mundo tanto melhor
se a palavra for verdadeiro sabre
Que importa ao pedreiro a marca e a cor da massa se for boa
para ligar os seus tijolos e fizer a vontade ao criador
Assim poeta é a língua.

Campesino Sarças

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma palavra chorava

Uma palavra chorava
por lhe tirarem o cê
fica mais pobre o projeto
e o arquiteto ficou mais simples
a olhar pro teto
a ver ir o pê
mudo como sempre
com ótimo aspeto.
E perentório tirou
o chapéu a um dos irmãos
como leem, veem
e de voo contente
o erre por ter mais atenção
de autorregozijo viu
segunda e janeiro
perderem estatuto
como santo e até senhor.
Que desorientação:
com ene pequeno o norte lá está
seja como for
para uns discreto
para outros deceção
vingaram-se no inverno
diminuiram o verão.
Mas o hifen caladinho
ali a um cantinho
porque ainda fica
por aí para confundir,
há de vingar-se da desfeita
e gerar confusão:
cor-de-rosa sim
mas de burro a fugir não?
E o acento esquecido
já não dá confusão nem erro
afinal como é?
começámos a aula
ou começamos...

jm, 19 janeiro 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ode antiga

Conta histórias, meu amor, lindas
enquanto argênteo pente
desliza nos teus auricritinos.

Não fales de projectos.
Sintamos, e pouco, somente
leves e passageiros afectos.

Saboreia o pão e o vinho
e não deposites a prazo,
frui a sombra do caminho

que o futuro incerto é.
Nem olhemos que o tempo foge:
sintamos a vontade do perto;

o longe repudiemos.
Colhe flores, amor, embeleza a hora
com as flores mais daninhas

e perfumemos este instante
invejado pelos deuses
a quem o Tempo também lho nega.

JM 82

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Romance dos (o)fendidos

Era uma vez um povo embarcado
com viúvas e órfãos e cornudos a rodos
que saiu do rectângulo
com o trangulo mangulo
a descobrir e educar povos!

Finda a empreitada,
sentaram-se à sombra da obra
e das ferramentas já ferrugentas
carcomidas e roubadas ao tempo,
mas sempre a palrar no passado
como o gabarola de Esopo.

Vós que de humano o gesto tendes,
gretado o peito e empedernido
de tantas ofensas e sacrilégios
por dentro e por fora fendido
já por farpões arregimentados
livrai-vos de qualquer jeito
antes que sejais fundidos
totalmente,e incluídos no lote
dos romeiros indesejados.

Lá vai um destemido
com fúria grande e sonorosa
de pau ufano e feito
à procura da cicuta, em vão,
que socraticamente livrará
a nação desse ignavo sono
e grita-se em mole
como se acreditassem
num qualquer miserando encoberto!

Os mais velhos esgueiram um olhar
gasto e quase baço;
os assim assim ainda dardejam,
à socapa, como mastins acossados
por créditos a perder de vista;
os mais novos seguem indiferentes
de calças pendentes
de fones e tudo.
Os restantes, os eleitos,
arremessam as siglas mais brutais
com indiferença tal
que tanto se lhes dá que haja FMI,
BCE ou não,UE - Portugal!

JM - janeiro 2011

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Romance para o Lennon

Faz frio em Nova Iorque - em Bragança também
tristes novas anunciam - por esse mundo além.
Ninguém quer acreditar - na infâmia e malvadez
nem no gesto tão cruel - contra a vida singular.
Ninguém quer acreditar - mas já calaram o amor
que somou tantos sons - e harmonia ao universo.
Mataram-no cantam aedos - ali jaz sob a neve
mas não morreu sua alma - só mataram o corpo breve.
Dum golpe lhe sai uma flor - do outro uma rolinha
às costas traz a guitarra - a dar notas de harmonia.
O ódio e o amor juntaram-se - para assinalar o dia
ninguém quer acreditar - nessa tão triste notícia.
O amor plantado cresce - a cada lágrima vertida
que desliza pelos rostos - que por aí amam livres.
Anunciam novas tristes - por esse mundo além
em Bragança fará frio - em Nova Iorque também...

JM 10/12/1980

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Teixeira de Pascoaes

A estrada nacional quinze serpenteia
o dorso fendido de Marânus
que firme aceitou que desenhassem
a passagem rumo a nordeste.

É como se a virgem serrana
transferisse para ali o calvário
e os murmúrios dos pinhais
chorassem os que tombam
nos reveses da marcha.

A lembrança e o o desejo
esculpem a saudade das curvas
e do casario espalhado pelo termo
com chaminés fumegantes
e talvez hipotéticos amantes
de poesia sorvam versos
espoliados da escola, das sebentas...

O Pessoa seca tudo! Não é ele,
é quem quer a ignorância.
Em cada viagem abraço Marânus
e tu por lá vagueias ungido
pela natureza.

JM 82

A Miguel Torga

Diz-me, ó grande poeta, que sal
tempera os teus versos?
Alguém que fite
a tua imagem cortante, esguia
e granítica;
que fala da terra quente e da terra fria
e solta límpidos pensamentos
imagina dom tão sublime em ti.

Puro, são claro e nu
com a dor de pensar sempre às costas
que abaula os quadris
e de metro sempre no bolso
para medir o que diz.

JM 82

Impor a quem os pôs...

À crise 83-85

Ai que chatice ouvir o político
a falar de administração
chatice a sério
é ver a derrocada do cidadão!

Ter de pagar imposto
privar a rapaziada da rambóia e da boémia
tão ao meu gosto
ter de pagar imposto
é de mau gosto
senhor vil e modesto!

Chatice é ver o destino da nação
orientado pela cobiça
e interesse promocional:
vota AD, PS cumpre
APU pela defesa de abril... etc., etc., & tal


E não é pelo que entendem que governam:
tão só pelo prazer d'impor
a quem os pôs a governar
para parir mais um imposto
até retroactivo se calhar

Karai! Isso é roubo disfarçado
daquilo que já nem se tem no bolso
que belo governar
que esta nação tem...

JM 85

Elegia IV

Ressoa murcha a ramagem dos pinhais
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem chorais?

Ressoam acordes dos ramos dobrados
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem a finados?

Ressoam as nuvens pelo céu enxuto
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem esse luto?

O eco passa não há quem responda
arrepia-me o silêncio sepulcral
firme grito à negra hedionda

Vai, corre teus caminhos desenfriada
mas saibas se passares à minha porta
olvidar tão bela vida amada.

JM 87

Elegia III

Senhor, erguem cruzes em todos os caminhos
onde outrora o povo confraternizava
os grandes esmagam os pequeninos
porque todos esqueceram a tua palavra.

E se algum queixume se levanta
contra os maus tratos e desumanidades
os poderosos bem lhes calam a garganta
injustiçando o mundo em nome de deidades.

Ó homens impiedosos e assassinos
indignos de pertencer ao escol da natureza
porque não cessais d'erguer cruzes pelos caminhos
e de agrilhoar do mundo a riqueza.

Erguei antes o vosso pesar e arrependimento
pela vossa insolência iníqua e desmedida
pois se não restar algum bondoso sentimento
caia sobre vós senhores pertinaz ira.

JM 87

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Agosto

Pelo São Lourenço
vai à vinha e enche o lenço.
Olha, já pendem cachos lustrosos
nestes dias que se gastam
festivos e vagarosos.

Convido-te a contemplar o pastel
e o nosso olhar encadeado
pelos bagos enxutos de moscatel
busca somente o recanto
secreto do amor.

Lá está ele,apontas tu:
sombra de videiras prenhes,
refúgio de perdigotos esquivos
entre as cepas e nós ali
a desejar que o dia
se suspenda nesse vórtice primordial
perfumado pelo odor da malvasia.

Caía sempre um bago no teu colo
e breve, lembras-te, seria mosto
e cada movimento da memória
e cada movimento do desejo
alenta a saudade desse agosto.


Marrão 82

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Inquietação

Respira-se e transpira-se,
não sei se nesse sopro
caberá o mundo. Peregrinos
caminham rumo à ventura.

Se não couber não faz mal
que não o quero só pra mim,
não o quero todo, só a parte
que me couber por sorte.

Mas acutelem-se que na raia
há homens sem passaporte
e cresce a raiva contra
a indiferença e o desnorte.

Ainda que vigieis a fronteira
nesta raia soltou-se a liberdade
e a turba faminta e desamada
não deixará de lutar.

Acautelem-se, acautelem-se
não deixeis o mundo à sorte
que os homens sem passaporte
não deixarão de lutar.

JM 87

Funaco

Pelo Santiago pinta o bago
e a meda cresce na eira.
A malha vem
e os medeiros erguem-se
como pináculos de catedrais
e nós brincamos no funaco.
Aos mais pequenos, inocentes ainda,
dizemos que não entrem,
que vem o ronco, e fogem.
Nós ficamos atónitos na palha
odorífica e quente, como um bafo
genesíaco e longínquo
que alimenta a eternidade.


Marrão 82