Espero na fraga e avisto a leveza
dos pássaros, a dureza das pedras,
o rumor das águas, a sombra do vale,
as curvas da estrada.
O contorno crepuscular dos montes
exala perfumes multiplicados
pelos nadas que me visitam,
mas não os posso agarrar.
Imagino-me sentado a contemplar
a flexibilidade dos vimes
arqueados sobre as águas
que descerão até ao infinito...
E, da gruta da fraga, o ecoar
dos murmúrios das mouras encantadas,
como nas lendas ditas, à espera
da palavra mágica, fascina-me.
Mas não ouso entrar porque tenho
encontro marcado com a minha Circe.
Espero-a aqui na fraga e sei que virá
saltitando de nuvem em nuvem.
Descerá num raio de sol restante
e juntos passaremos, fraga, ficarás tu
por cá a olhar a estrada
adormecida pelo ribeiro cantante.
JM
Este surgiu de uma brincadeira entre amigos. Combinámos fazer versos a sítios da aldeia. Sempre me fascinou a gruta da Fraga da Corvaceira, lugar onde os corvos faziam os nihos. Está situada num vale junto ao ribeiro da Sapeira. De um lado do vale a fraga, do outro, na parte soalheira, a estrada. Foi iniciado na Adega do António Centeno. Histórias, copos, noites....Não é o original. Talvez seja de 1980/81, mas foi retocado várias vezes até 85?, altura que tinha tempo livre, lia, ecrevia, cinema, encontros e desencontros... A Circe também era outra.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Fidalguinha afidalgada
A umas meninas do Liceu de Bragança:
As meninas, menininhas
das meninices, ameninadas
- ai não me toques que me desafinas -
são pobres, tristes, vadias
e meninas bem mimadas!
Lá vão elas ao cafezinho,
bem vestidas à moderna
um vistoso macacão
mostrando as curvas da perna
sempre com ar mui chochinho!
Tomando o seu carioca
- e o nosso garotinho -
a carteira coitadinha
com quatro tostões no fundo
ainda dão p'ra uma chuchinha!
E aquela que veio da aldeia!
Já não a conheces?
Olha que está mudada
parecia uma ciganinha
e agora anda tão pintada!
E a da cidade!Deixa-me olhar:
ela será fidalguinha
ou fidalga afidalgada?
Nota-se pelo andar
que anda preocupada!
Rapaziada que risota!
Temos de afidalgar nós também.
Arranjar novos adereços
para entrar na peça e toca
a engatar bem, bem..!
Bragança, Abril de 1979
As meninas, menininhas
das meninices, ameninadas
- ai não me toques que me desafinas -
são pobres, tristes, vadias
e meninas bem mimadas!
Lá vão elas ao cafezinho,
bem vestidas à moderna
um vistoso macacão
mostrando as curvas da perna
sempre com ar mui chochinho!
Tomando o seu carioca
- e o nosso garotinho -
a carteira coitadinha
com quatro tostões no fundo
ainda dão p'ra uma chuchinha!
E aquela que veio da aldeia!
Já não a conheces?
Olha que está mudada
parecia uma ciganinha
e agora anda tão pintada!
E a da cidade!Deixa-me olhar:
ela será fidalguinha
ou fidalga afidalgada?
Nota-se pelo andar
que anda preocupada!
Rapaziada que risota!
Temos de afidalgar nós também.
Arranjar novos adereços
para entrar na peça e toca
a engatar bem, bem..!
Bragança, Abril de 1979
Terra mãe
A magia da charrua
de aguilhada na mão
rasga a terra dura
entoa uma canção.
De mão na enxada
o amor não tem preço
e à sombra da tapada
dorme a criança no berço.
Ó aldeia além-Sabor
lá no alto de branquinho
nosso povo acolhedor
dando alma pão e vinho.
Das leiras amanhadas
à malhada de Agosto
rapazes e raparigas
trazem sorriso no rosto.
Raparigas de mi terra
como elas não há igual
são raianas são da serra
cantinho de Portugal.
Vamos à praça a bailar
a jota, o picado, o malhão
dá recados de pasmar
mas é de bom coração.
JM
Esta pertence a um caderno de apontamentos que levei numa viagem a Stuttgart, Alemanha (naquela altura RFA) Julho/Agosto de 1981. Lembrei-me do contraste da Europa industrializada, neblina de gases e tudo...e do meu universo. Excitva-me a Europa, mas realmente o meu universo era maior, mais real, mais eufórico, mais livre, mais qualquer coisa que não sabia explicar. Desses apontamentos transcrevo: "Vinha para ser emigrante, mas a terra-mãe puxa-me e a minha Mãe, ó como sofres, segreda-me todas as noites que não".
de aguilhada na mão
rasga a terra dura
entoa uma canção.
De mão na enxada
o amor não tem preço
e à sombra da tapada
dorme a criança no berço.
Ó aldeia além-Sabor
lá no alto de branquinho
nosso povo acolhedor
dando alma pão e vinho.
Das leiras amanhadas
à malhada de Agosto
rapazes e raparigas
trazem sorriso no rosto.
Raparigas de mi terra
como elas não há igual
são raianas são da serra
cantinho de Portugal.
Vamos à praça a bailar
a jota, o picado, o malhão
dá recados de pasmar
mas é de bom coração.
JM
Esta pertence a um caderno de apontamentos que levei numa viagem a Stuttgart, Alemanha (naquela altura RFA) Julho/Agosto de 1981. Lembrei-me do contraste da Europa industrializada, neblina de gases e tudo...e do meu universo. Excitva-me a Europa, mas realmente o meu universo era maior, mais real, mais eufórico, mais livre, mais qualquer coisa que não sabia explicar. Desses apontamentos transcrevo: "Vinha para ser emigrante, mas a terra-mãe puxa-me e a minha Mãe, ó como sofres, segreda-me todas as noites que não".
Endecha
Caminho brando e leve
sobre a geada vidrada
ou escorrego na neve
em tarde acinzentada.
Apresso o passo e caio
contorcido em dores
traz, ó tempo, o Maio
em que brilham as flores.
Eu vivo descuidado
às surpresas do amor
quão mor for o cuidado
menor será futura dor.
Por isso muito sério
digo com grão empenho
e sem qualquer mistério
que quem ama é cego.
JM 82
Este é um exemplo de pastiche. Nas tardes longas da minha aldeia, nas noites com silêncios largos atravessados por paltitações, quimeras e rumores das palavras do mundo, achava que também lá tinha o meu lugar. Cada um de nós tem um lugar. O pior que podia acontecer era ser incomodado pelo berrar de um cordeirinho nascido, um carro de bois madrugador a chiar termo fora, ou o Nilo, o meu cão de latido vigoroso. Um dia quis fazer à maneira de Camões, conforme estava na selecta...usando os arcaísmos e tudo. Não ensina Aristóteles que poesia é imitação?
sobre a geada vidrada
ou escorrego na neve
em tarde acinzentada.
Apresso o passo e caio
contorcido em dores
traz, ó tempo, o Maio
em que brilham as flores.
Eu vivo descuidado
às surpresas do amor
quão mor for o cuidado
menor será futura dor.
Por isso muito sério
digo com grão empenho
e sem qualquer mistério
que quem ama é cego.
JM 82
Este é um exemplo de pastiche. Nas tardes longas da minha aldeia, nas noites com silêncios largos atravessados por paltitações, quimeras e rumores das palavras do mundo, achava que também lá tinha o meu lugar. Cada um de nós tem um lugar. O pior que podia acontecer era ser incomodado pelo berrar de um cordeirinho nascido, um carro de bois madrugador a chiar termo fora, ou o Nilo, o meu cão de latido vigoroso. Um dia quis fazer à maneira de Camões, conforme estava na selecta...usando os arcaísmos e tudo. Não ensina Aristóteles que poesia é imitação?
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Natal de outros
Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da mangedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha vã da infância que perdi.
Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas…
Miguel Torga
Longe da mangedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha vã da infância que perdi.
Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas…
Miguel Torga
De Natal
Meu menino Jesus,
quem te deu a casaquinha?
Foi minha avó Santa Ana
com botões de prata fina
+
Está a chover e a nevar
e a raposa no quintal
a fazer a camisinha
para o dia de Natal
Popular - de Babe, claro.
quem te deu a casaquinha?
Foi minha avó Santa Ana
com botões de prata fina
+
Está a chover e a nevar
e a raposa no quintal
a fazer a camisinha
para o dia de Natal
Popular - de Babe, claro.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Amor de Natal
Das aventuras já vividas de Natal
esta foi para mim a mais bonita
havias chegado há pouco a Portugal
tua beleza cegou logo a minha vista.
Depressa serenaste as dores da paixão
que nos meus olhos notavas claramente
como era suave o toque fino da tua mão
e quente o fogo que se ateou de repente!
E pelo arraial e naquele passeio,
ó doce C., inspiradora deste poema,
pelo teu amor e beleza eu anseio
meu anjo querido, minha pobre pequena!
E o meu olhar cada vez mais limpo
aquele olhar virginal que nele batia
chamava por mim para o nosso ninho
como um sonho lindo que ambos nutria!
Já sozinhos vigiados pelas estrelas
meu amor eterno te queria mostrar
assim guiados pela luz cintilante delas
teus lábios ardentes queria beijar!
Depois, ó doce C., minha boa amada,
inconscinetes dessa felicidade breve
quando enrolados já na macia palha
cantámos, sorrimos, rebolámos na neve!
Ó doce C, flor airosa da minha janela
que enfeita beirados, aí fizeste-me jurar
que por este amor, minha flor singela,
teu nome eternamente havia de chamar!
Se esta paixão já foi realidade
vivida, sem queixume algum deixar,
não temas em procurar a felicidade
porém recorda quem te ensinou a amar!
Eu recordarei bem o teu perfume suave
do corpo e da alma envolta em mistério
do meu coração deixei-te uma chave
nem que me visites já no cemitério!
Jorge Marrão
em Babe, a seguir ao Natal de 1983
esta foi para mim a mais bonita
havias chegado há pouco a Portugal
tua beleza cegou logo a minha vista.
Depressa serenaste as dores da paixão
que nos meus olhos notavas claramente
como era suave o toque fino da tua mão
e quente o fogo que se ateou de repente!
E pelo arraial e naquele passeio,
ó doce C., inspiradora deste poema,
pelo teu amor e beleza eu anseio
meu anjo querido, minha pobre pequena!
E o meu olhar cada vez mais limpo
aquele olhar virginal que nele batia
chamava por mim para o nosso ninho
como um sonho lindo que ambos nutria!
Já sozinhos vigiados pelas estrelas
meu amor eterno te queria mostrar
assim guiados pela luz cintilante delas
teus lábios ardentes queria beijar!
Depois, ó doce C., minha boa amada,
inconscinetes dessa felicidade breve
quando enrolados já na macia palha
cantámos, sorrimos, rebolámos na neve!
Ó doce C, flor airosa da minha janela
que enfeita beirados, aí fizeste-me jurar
que por este amor, minha flor singela,
teu nome eternamente havia de chamar!
Se esta paixão já foi realidade
vivida, sem queixume algum deixar,
não temas em procurar a felicidade
porém recorda quem te ensinou a amar!
Eu recordarei bem o teu perfume suave
do corpo e da alma envolta em mistério
do meu coração deixei-te uma chave
nem que me visites já no cemitério!
Jorge Marrão
em Babe, a seguir ao Natal de 1983
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