Diz-me, ó grande poeta, que sal
tempera os teus versos?
Alguém que fite
a tua imagem cortante, esguia
e granítica;
que fala da terra quente e da terra fria
e solta límpidos pensamentos
imagina dom tão sublime em ti.
Puro, são claro e nu
com a dor de pensar sempre às costas
que abaula os quadris
e de metro sempre no bolso
para medir o que diz.
JM 82
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Impor a quem os pôs...
À crise 83-85
Ai que chatice ouvir o político
a falar de administração
chatice a sério
é ver a derrocada do cidadão!
Ter de pagar imposto
privar a rapaziada da rambóia e da boémia
tão ao meu gosto
ter de pagar imposto
é de mau gosto
senhor vil e modesto!
Chatice é ver o destino da nação
orientado pela cobiça
e interesse promocional:
vota AD, PS cumpre
APU pela defesa de abril... etc., etc., & tal
E não é pelo que entendem que governam:
tão só pelo prazer d'impor
a quem os pôs a governar
para parir mais um imposto
até retroactivo se calhar
Karai! Isso é roubo disfarçado
daquilo que já nem se tem no bolso
que belo governar
que esta nação tem...
JM 85
Ai que chatice ouvir o político
a falar de administração
chatice a sério
é ver a derrocada do cidadão!
Ter de pagar imposto
privar a rapaziada da rambóia e da boémia
tão ao meu gosto
ter de pagar imposto
é de mau gosto
senhor vil e modesto!
Chatice é ver o destino da nação
orientado pela cobiça
e interesse promocional:
vota AD, PS cumpre
APU pela defesa de abril... etc., etc., & tal
E não é pelo que entendem que governam:
tão só pelo prazer d'impor
a quem os pôs a governar
para parir mais um imposto
até retroactivo se calhar
Karai! Isso é roubo disfarçado
daquilo que já nem se tem no bolso
que belo governar
que esta nação tem...
JM 85
Elegia IV
Ressoa murcha a ramagem dos pinhais
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem chorais?
Ressoam acordes dos ramos dobrados
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem a finados?
Ressoam as nuvens pelo céu enxuto
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem esse luto?
O eco passa não há quem responda
arrepia-me o silêncio sepulcral
firme grito à negra hedionda
Vai, corre teus caminhos desenfriada
mas saibas se passares à minha porta
olvidar tão bela vida amada.
JM 87
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem chorais?
Ressoam acordes dos ramos dobrados
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem a finados?
Ressoam as nuvens pelo céu enxuto
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem esse luto?
O eco passa não há quem responda
arrepia-me o silêncio sepulcral
firme grito à negra hedionda
Vai, corre teus caminhos desenfriada
mas saibas se passares à minha porta
olvidar tão bela vida amada.
JM 87
Elegia III
Senhor, erguem cruzes em todos os caminhos
onde outrora o povo confraternizava
os grandes esmagam os pequeninos
porque todos esqueceram a tua palavra.
E se algum queixume se levanta
contra os maus tratos e desumanidades
os poderosos bem lhes calam a garganta
injustiçando o mundo em nome de deidades.
Ó homens impiedosos e assassinos
indignos de pertencer ao escol da natureza
porque não cessais d'erguer cruzes pelos caminhos
e de agrilhoar do mundo a riqueza.
Erguei antes o vosso pesar e arrependimento
pela vossa insolência iníqua e desmedida
pois se não restar algum bondoso sentimento
caia sobre vós senhores pertinaz ira.
JM 87
onde outrora o povo confraternizava
os grandes esmagam os pequeninos
porque todos esqueceram a tua palavra.
E se algum queixume se levanta
contra os maus tratos e desumanidades
os poderosos bem lhes calam a garganta
injustiçando o mundo em nome de deidades.
Ó homens impiedosos e assassinos
indignos de pertencer ao escol da natureza
porque não cessais d'erguer cruzes pelos caminhos
e de agrilhoar do mundo a riqueza.
Erguei antes o vosso pesar e arrependimento
pela vossa insolência iníqua e desmedida
pois se não restar algum bondoso sentimento
caia sobre vós senhores pertinaz ira.
JM 87
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Agosto
Pelo São Lourenço
vai à vinha e enche o lenço.
Olha, já pendem cachos lustrosos
nestes dias que se gastam
festivos e vagarosos.
Convido-te a contemplar o pastel
e o nosso olhar encadeado
pelos bagos enxutos de moscatel
busca somente o recanto
secreto do amor.
Lá está ele,apontas tu:
sombra de videiras prenhes,
refúgio de perdigotos esquivos
entre as cepas e nós ali
a desejar que o dia
se suspenda nesse vórtice primordial
perfumado pelo odor da malvasia.
Caía sempre um bago no teu colo
e breve, lembras-te, seria mosto
e cada movimento da memória
e cada movimento do desejo
alenta a saudade desse agosto.
Marrão 82
vai à vinha e enche o lenço.
Olha, já pendem cachos lustrosos
nestes dias que se gastam
festivos e vagarosos.
Convido-te a contemplar o pastel
e o nosso olhar encadeado
pelos bagos enxutos de moscatel
busca somente o recanto
secreto do amor.
Lá está ele,apontas tu:
sombra de videiras prenhes,
refúgio de perdigotos esquivos
entre as cepas e nós ali
a desejar que o dia
se suspenda nesse vórtice primordial
perfumado pelo odor da malvasia.
Caía sempre um bago no teu colo
e breve, lembras-te, seria mosto
e cada movimento da memória
e cada movimento do desejo
alenta a saudade desse agosto.
Marrão 82
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Inquietação
Respira-se e transpira-se,
não sei se nesse sopro
caberá o mundo. Peregrinos
caminham rumo à ventura.
Se não couber não faz mal
que não o quero só pra mim,
não o quero todo, só a parte
que me couber por sorte.
Mas acutelem-se que na raia
há homens sem passaporte
e cresce a raiva contra
a indiferença e o desnorte.
Ainda que vigieis a fronteira
nesta raia soltou-se a liberdade
e a turba faminta e desamada
não deixará de lutar.
Acautelem-se, acautelem-se
não deixeis o mundo à sorte
que os homens sem passaporte
não deixarão de lutar.
JM 87
não sei se nesse sopro
caberá o mundo. Peregrinos
caminham rumo à ventura.
Se não couber não faz mal
que não o quero só pra mim,
não o quero todo, só a parte
que me couber por sorte.
Mas acutelem-se que na raia
há homens sem passaporte
e cresce a raiva contra
a indiferença e o desnorte.
Ainda que vigieis a fronteira
nesta raia soltou-se a liberdade
e a turba faminta e desamada
não deixará de lutar.
Acautelem-se, acautelem-se
não deixeis o mundo à sorte
que os homens sem passaporte
não deixarão de lutar.
JM 87
Funaco
Pelo Santiago pinta o bago
e a meda cresce na eira.
A malha vem
e os medeiros erguem-se
como pináculos de catedrais
e nós brincamos no funaco.
Aos mais pequenos, inocentes ainda,
dizemos que não entrem,
que vem o ronco, e fogem.
Nós ficamos atónitos na palha
odorífica e quente, como um bafo
genesíaco e longínquo
que alimenta a eternidade.
Marrão 82
e a meda cresce na eira.
A malha vem
e os medeiros erguem-se
como pináculos de catedrais
e nós brincamos no funaco.
Aos mais pequenos, inocentes ainda,
dizemos que não entrem,
que vem o ronco, e fogem.
Nós ficamos atónitos na palha
odorífica e quente, como um bafo
genesíaco e longínquo
que alimenta a eternidade.
Marrão 82
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