Era uma vez um povo embarcado
com viúvas e órfãos e cornudos a rodos
que saiu do rectângulo
com o trangulo mangulo
a descobrir e educar povos!
Finda a empreitada,
sentaram-se à sombra da obra
e das ferramentas já ferrugentas
carcomidas e roubadas ao tempo,
mas sempre a palrar no passado
como o gabarola de Esopo.
Vós que de humano o gesto tendes,
gretado o peito e empedernido
de tantas ofensas e sacrilégios
por dentro e por fora fendido
já por farpões arregimentados
livrai-vos de qualquer jeito
antes que sejais fundidos
totalmente,e incluídos no lote
dos romeiros indesejados.
Lá vai um destemido
com fúria grande e sonorosa
de pau ufano e feito
à procura da cicuta, em vão,
que socraticamente livrará
a nação desse ignavo sono
e grita-se em mole
como se acreditassem
num qualquer miserando encoberto!
Os mais velhos esgueiram um olhar
gasto e quase baço;
os assim assim ainda dardejam,
à socapa, como mastins acossados
por créditos a perder de vista;
os mais novos seguem indiferentes
de calças pendentes
de fones e tudo.
Os restantes, os eleitos,
arremessam as siglas mais brutais
com indiferença tal
que tanto se lhes dá que haja FMI,
BCE ou não,UE - Portugal!
JM - janeiro 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Romance para o Lennon
Faz frio em Nova Iorque - em Bragança também
tristes novas anunciam - por esse mundo além.
Ninguém quer acreditar - na infâmia e malvadez
nem no gesto tão cruel - contra a vida singular.
Ninguém quer acreditar - mas já calaram o amor
que somou tantos sons - e harmonia ao universo.
Mataram-no cantam aedos - ali jaz sob a neve
mas não morreu sua alma - só mataram o corpo breve.
Dum golpe lhe sai uma flor - do outro uma rolinha
às costas traz a guitarra - a dar notas de harmonia.
O ódio e o amor juntaram-se - para assinalar o dia
ninguém quer acreditar - nessa tão triste notícia.
O amor plantado cresce - a cada lágrima vertida
que desliza pelos rostos - que por aí amam livres.
Anunciam novas tristes - por esse mundo além
em Bragança fará frio - em Nova Iorque também...
JM 10/12/1980
tristes novas anunciam - por esse mundo além.
Ninguém quer acreditar - na infâmia e malvadez
nem no gesto tão cruel - contra a vida singular.
Ninguém quer acreditar - mas já calaram o amor
que somou tantos sons - e harmonia ao universo.
Mataram-no cantam aedos - ali jaz sob a neve
mas não morreu sua alma - só mataram o corpo breve.
Dum golpe lhe sai uma flor - do outro uma rolinha
às costas traz a guitarra - a dar notas de harmonia.
O ódio e o amor juntaram-se - para assinalar o dia
ninguém quer acreditar - nessa tão triste notícia.
O amor plantado cresce - a cada lágrima vertida
que desliza pelos rostos - que por aí amam livres.
Anunciam novas tristes - por esse mundo além
em Bragança fará frio - em Nova Iorque também...
JM 10/12/1980
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
A Teixeira de Pascoaes
A estrada nacional quinze serpenteia
o dorso fendido de Marânus
que firme aceitou que desenhassem
a passagem rumo a nordeste.
É como se a virgem serrana
transferisse para ali o calvário
e os murmúrios dos pinhais
chorassem os que tombam
nos reveses da marcha.
A lembrança e o o desejo
esculpem a saudade das curvas
e do casario espalhado pelo termo
com chaminés fumegantes
e talvez hipotéticos amantes
de poesia sorvam versos
espoliados da escola, das sebentas...
O Pessoa seca tudo! Não é ele,
é quem quer a ignorância.
Em cada viagem abraço Marânus
e tu por lá vagueias ungido
pela natureza.
JM 82
o dorso fendido de Marânus
que firme aceitou que desenhassem
a passagem rumo a nordeste.
É como se a virgem serrana
transferisse para ali o calvário
e os murmúrios dos pinhais
chorassem os que tombam
nos reveses da marcha.
A lembrança e o o desejo
esculpem a saudade das curvas
e do casario espalhado pelo termo
com chaminés fumegantes
e talvez hipotéticos amantes
de poesia sorvam versos
espoliados da escola, das sebentas...
O Pessoa seca tudo! Não é ele,
é quem quer a ignorância.
Em cada viagem abraço Marânus
e tu por lá vagueias ungido
pela natureza.
JM 82
A Miguel Torga
Diz-me, ó grande poeta, que sal
tempera os teus versos?
Alguém que fite
a tua imagem cortante, esguia
e granítica;
que fala da terra quente e da terra fria
e solta límpidos pensamentos
imagina dom tão sublime em ti.
Puro, são claro e nu
com a dor de pensar sempre às costas
que abaula os quadris
e de metro sempre no bolso
para medir o que diz.
JM 82
tempera os teus versos?
Alguém que fite
a tua imagem cortante, esguia
e granítica;
que fala da terra quente e da terra fria
e solta límpidos pensamentos
imagina dom tão sublime em ti.
Puro, são claro e nu
com a dor de pensar sempre às costas
que abaula os quadris
e de metro sempre no bolso
para medir o que diz.
JM 82
Impor a quem os pôs...
À crise 83-85
Ai que chatice ouvir o político
a falar de administração
chatice a sério
é ver a derrocada do cidadão!
Ter de pagar imposto
privar a rapaziada da rambóia e da boémia
tão ao meu gosto
ter de pagar imposto
é de mau gosto
senhor vil e modesto!
Chatice é ver o destino da nação
orientado pela cobiça
e interesse promocional:
vota AD, PS cumpre
APU pela defesa de abril... etc., etc., & tal
E não é pelo que entendem que governam:
tão só pelo prazer d'impor
a quem os pôs a governar
para parir mais um imposto
até retroactivo se calhar
Karai! Isso é roubo disfarçado
daquilo que já nem se tem no bolso
que belo governar
que esta nação tem...
JM 85
Ai que chatice ouvir o político
a falar de administração
chatice a sério
é ver a derrocada do cidadão!
Ter de pagar imposto
privar a rapaziada da rambóia e da boémia
tão ao meu gosto
ter de pagar imposto
é de mau gosto
senhor vil e modesto!
Chatice é ver o destino da nação
orientado pela cobiça
e interesse promocional:
vota AD, PS cumpre
APU pela defesa de abril... etc., etc., & tal
E não é pelo que entendem que governam:
tão só pelo prazer d'impor
a quem os pôs a governar
para parir mais um imposto
até retroactivo se calhar
Karai! Isso é roubo disfarçado
daquilo que já nem se tem no bolso
que belo governar
que esta nação tem...
JM 85
Elegia IV
Ressoa murcha a ramagem dos pinhais
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem chorais?
Ressoam acordes dos ramos dobrados
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem a finados?
Ressoam as nuvens pelo céu enxuto
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem esse luto?
O eco passa não há quem responda
arrepia-me o silêncio sepulcral
firme grito à negra hedionda
Vai, corre teus caminhos desenfriada
mas saibas se passares à minha porta
olvidar tão bela vida amada.
JM 87
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem chorais?
Ressoam acordes dos ramos dobrados
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem a finados?
Ressoam as nuvens pelo céu enxuto
eu passo e ouso perguntar bem alto
por quem esse luto?
O eco passa não há quem responda
arrepia-me o silêncio sepulcral
firme grito à negra hedionda
Vai, corre teus caminhos desenfriada
mas saibas se passares à minha porta
olvidar tão bela vida amada.
JM 87
Elegia III
Senhor, erguem cruzes em todos os caminhos
onde outrora o povo confraternizava
os grandes esmagam os pequeninos
porque todos esqueceram a tua palavra.
E se algum queixume se levanta
contra os maus tratos e desumanidades
os poderosos bem lhes calam a garganta
injustiçando o mundo em nome de deidades.
Ó homens impiedosos e assassinos
indignos de pertencer ao escol da natureza
porque não cessais d'erguer cruzes pelos caminhos
e de agrilhoar do mundo a riqueza.
Erguei antes o vosso pesar e arrependimento
pela vossa insolência iníqua e desmedida
pois se não restar algum bondoso sentimento
caia sobre vós senhores pertinaz ira.
JM 87
onde outrora o povo confraternizava
os grandes esmagam os pequeninos
porque todos esqueceram a tua palavra.
E se algum queixume se levanta
contra os maus tratos e desumanidades
os poderosos bem lhes calam a garganta
injustiçando o mundo em nome de deidades.
Ó homens impiedosos e assassinos
indignos de pertencer ao escol da natureza
porque não cessais d'erguer cruzes pelos caminhos
e de agrilhoar do mundo a riqueza.
Erguei antes o vosso pesar e arrependimento
pela vossa insolência iníqua e desmedida
pois se não restar algum bondoso sentimento
caia sobre vós senhores pertinaz ira.
JM 87
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