sexta-feira, 4 de março de 2011

Outra ode

Ouve os sons não importa quais e inventa olhares
que tragam trigo e águas sóbrias
Olha os tempos que vêm e aprisiona com palavras o teus ideais
ciente duma verdade universal solta-lhe as amarras
Sente os buracos do caminho sendo longo tanto melhor
e aproveita a viagem que a invenção te oferece
Respira os odores breves reminiscências duma natureza
que vai e vem indiferente à forma por isso livre
Arranja dentro de ti calma e imaginação e sem preconceitos
enfrenta os desafios que a liberdade te oferece
E mesmo discutindo a beleza governarás o mundo tanto melhor
se a palavra for verdadeiro sabre
Que importa ao pedreiro a marca e a cor da massa se for boa
para ligar os seus tijolos e fizer a vontade ao criador
Assim poeta é a língua.

Campesino Sarças

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma palavra chorava

Uma palavra chorava
por lhe tirarem o cê
fica mais pobre o projeto
e o arquiteto ficou mais simples
a olhar pro teto
a ver ir o pê
mudo como sempre
com ótimo aspeto.
E perentório tirou
o chapéu a um dos irmãos
como leem, veem
e de voo contente
o erre por ter mais atenção
de autorregozijo viu
segunda e janeiro
perderem estatuto
como santo e até senhor.
Que desorientação:
com ene pequeno o norte lá está
seja como for
para uns discreto
para outros deceção
vingaram-se no inverno
diminuiram o verão.
Mas o hifen caladinho
ali a um cantinho
porque ainda fica
por aí para confundir,
há de vingar-se da desfeita
e gerar confusão:
cor-de-rosa sim
mas de burro a fugir não?
E o acento esquecido
já não dá confusão nem erro
afinal como é?
começámos a aula
ou começamos...

jm, 19 janeiro 2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Ode antiga

Conta histórias, meu amor, lindas
enquanto argênteo pente
desliza nos teus auricritinos.

Não fales de projectos.
Sintamos, e pouco, somente
leves e passageiros afectos.

Saboreia o pão e o vinho
e não deposites a prazo,
frui a sombra do caminho

que o futuro incerto é.
Nem olhemos que o tempo foge:
sintamos a vontade do perto;

o longe repudiemos.
Colhe flores, amor, embeleza a hora
com as flores mais daninhas

e perfumemos este instante
invejado pelos deuses
a quem o Tempo também lho nega.

JM 82

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Romance dos (o)fendidos

Era uma vez um povo embarcado
com viúvas e órfãos e cornudos a rodos
que saiu do rectângulo
com o trangulo mangulo
a descobrir e educar povos!

Finda a empreitada,
sentaram-se à sombra da obra
e das ferramentas já ferrugentas
carcomidas e roubadas ao tempo,
mas sempre a palrar no passado
como o gabarola de Esopo.

Vós que de humano o gesto tendes,
gretado o peito e empedernido
de tantas ofensas e sacrilégios
por dentro e por fora fendido
já por farpões arregimentados
livrai-vos de qualquer jeito
antes que sejais fundidos
totalmente,e incluídos no lote
dos romeiros indesejados.

Lá vai um destemido
com fúria grande e sonorosa
de pau ufano e feito
à procura da cicuta, em vão,
que socraticamente livrará
a nação desse ignavo sono
e grita-se em mole
como se acreditassem
num qualquer miserando encoberto!

Os mais velhos esgueiram um olhar
gasto e quase baço;
os assim assim ainda dardejam,
à socapa, como mastins acossados
por créditos a perder de vista;
os mais novos seguem indiferentes
de calças pendentes
de fones e tudo.
Os restantes, os eleitos,
arremessam as siglas mais brutais
com indiferença tal
que tanto se lhes dá que haja FMI,
BCE ou não,UE - Portugal!

JM - janeiro 2011

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Romance para o Lennon

Faz frio em Nova Iorque - em Bragança também
tristes novas anunciam - por esse mundo além.
Ninguém quer acreditar - na infâmia e malvadez
nem no gesto tão cruel - contra a vida singular.
Ninguém quer acreditar - mas já calaram o amor
que somou tantos sons - e harmonia ao universo.
Mataram-no cantam aedos - ali jaz sob a neve
mas não morreu sua alma - só mataram o corpo breve.
Dum golpe lhe sai uma flor - do outro uma rolinha
às costas traz a guitarra - a dar notas de harmonia.
O ódio e o amor juntaram-se - para assinalar o dia
ninguém quer acreditar - nessa tão triste notícia.
O amor plantado cresce - a cada lágrima vertida
que desliza pelos rostos - que por aí amam livres.
Anunciam novas tristes - por esse mundo além
em Bragança fará frio - em Nova Iorque também...

JM 10/12/1980

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Teixeira de Pascoaes

A estrada nacional quinze serpenteia
o dorso fendido de Marânus
que firme aceitou que desenhassem
a passagem rumo a nordeste.

É como se a virgem serrana
transferisse para ali o calvário
e os murmúrios dos pinhais
chorassem os que tombam
nos reveses da marcha.

A lembrança e o o desejo
esculpem a saudade das curvas
e do casario espalhado pelo termo
com chaminés fumegantes
e talvez hipotéticos amantes
de poesia sorvam versos
espoliados da escola, das sebentas...

O Pessoa seca tudo! Não é ele,
é quem quer a ignorância.
Em cada viagem abraço Marânus
e tu por lá vagueias ungido
pela natureza.

JM 82

A Miguel Torga

Diz-me, ó grande poeta, que sal
tempera os teus versos?
Alguém que fite
a tua imagem cortante, esguia
e granítica;
que fala da terra quente e da terra fria
e solta límpidos pensamentos
imagina dom tão sublime em ti.

Puro, são claro e nu
com a dor de pensar sempre às costas
que abaula os quadris
e de metro sempre no bolso
para medir o que diz.

JM 82