Respira-se e transpira-se,
não sei se nesse sopro
caberá o mundo. Peregrinos
caminham rumo à ventura.
Se não couber não faz mal
que não o quero só pra mim,
não o quero todo, só a parte
que me couber por sorte.
Mas acutelem-se que na raia
há homens sem passaporte
e cresce a raiva contra
a indiferença e o desnorte.
Ainda que vigieis a fronteira
nesta raia soltou-se a liberdade
e a turba faminta e desamada
não deixará de lutar.
Acautelem-se, acautelem-se
não deixeis o mundo à sorte
que os homens sem passaporte
não deixarão de lutar.
JM 87
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Funaco
Pelo Santiago pinta o bago
e a meda cresce na eira.
A malha vem
e os medeiros erguem-se
como pináculos de catedrais
e nós brincamos no funaco.
Aos mais pequenos, inocentes ainda,
dizemos que não entrem,
que vem o ronco, e fogem.
Nós ficamos atónitos na palha
odorífica e quente, como um bafo
genesíaco e longínquo
que alimenta a eternidade.
Marrão 82
e a meda cresce na eira.
A malha vem
e os medeiros erguem-se
como pináculos de catedrais
e nós brincamos no funaco.
Aos mais pequenos, inocentes ainda,
dizemos que não entrem,
que vem o ronco, e fogem.
Nós ficamos atónitos na palha
odorífica e quente, como um bafo
genesíaco e longínquo
que alimenta a eternidade.
Marrão 82
quarta-feira, 3 de março de 2010
Dança
O movimento programado,
multiforme e colorido,
sustenta a leveza do gesto
rápido,tenso,ágil e terno.
Os corpos tocam-se e separam-se
na ansiedade de cumprir o belo
e procuram o ritmo certo,harmonioso
e intenso como o olhar.
Enrolam-se e desenrolam-se
e erguem-se na rotação certa,
como dois inventos do porvir,
segundo uma lei física qualquer.
Ritmos variados ondeiam
e preenchem os recantos do universo.
Os corpos param e ficam encaixados,
suspensos no espaço e no tempo.
JM
multiforme e colorido,
sustenta a leveza do gesto
rápido,tenso,ágil e terno.
Os corpos tocam-se e separam-se
na ansiedade de cumprir o belo
e procuram o ritmo certo,harmonioso
e intenso como o olhar.
Enrolam-se e desenrolam-se
e erguem-se na rotação certa,
como dois inventos do porvir,
segundo uma lei física qualquer.
Ritmos variados ondeiam
e preenchem os recantos do universo.
Os corpos param e ficam encaixados,
suspensos no espaço e no tempo.
JM
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Ode a Joaquim Agostinho
Que palmas, que louvores
merece aquele que rola,
trepa, sua e vence;
mas num instante, por terra,
homem e bicilcleta
são encontrados na ravina,
ou imóveis na valeta?
Ganha-se a fama, lá vai a vida....
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Basta um cão, um gesto, um revés!
Na planície tudo ficou
mais difícil do que em d'Huez,
em Cangas ou na caseira Torre.
Mas meninos, adultos e velhos
felicitam-te com bandeirinhas.
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Nas serras os galhos abanam
e as águas rugem frescas;
e tu pedalas encosta acima.
Esperas, humilde, por Poulidor
e Merckx que enaltecem a vitória:
beijos e palmas ao vencedor.
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Por todos os lugares o público
ladeia as ruas engalanadas
e tu passas de pedaleira
pesada rasgando alcatrão e pavé:
leal, lutador e ladeado
por Zoetemelk, Hinault, Thévenet...
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Agora regressas a casa
e os campos em Maio murcham
e lamenta-se o fado português
apesar das palmas desde Lisboa
a Torres e à tua Silveira
onde tens repouso em boa hora.
Que palmas, que louvores
merece aquele que rola,
trepa, sua e vence.
Cedo passaste nos Campos Elíseos!
Os deuses ficaram de olho em ti,
mas o fado é indiferente ao merecimento.
Todavia, é clássico, os deuses chamam
bem cedo os que mais amam.
JM 1984
merece aquele que rola,
trepa, sua e vence;
mas num instante, por terra,
homem e bicilcleta
são encontrados na ravina,
ou imóveis na valeta?
Ganha-se a fama, lá vai a vida....
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Basta um cão, um gesto, um revés!
Na planície tudo ficou
mais difícil do que em d'Huez,
em Cangas ou na caseira Torre.
Mas meninos, adultos e velhos
felicitam-te com bandeirinhas.
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Nas serras os galhos abanam
e as águas rugem frescas;
e tu pedalas encosta acima.
Esperas, humilde, por Poulidor
e Merckx que enaltecem a vitória:
beijos e palmas ao vencedor.
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Por todos os lugares o público
ladeia as ruas engalanadas
e tu passas de pedaleira
pesada rasgando alcatrão e pavé:
leal, lutador e ladeado
por Zoetemelk, Hinault, Thévenet...
A trezentos metros da meta
perde-se e ganha-se.
Agora regressas a casa
e os campos em Maio murcham
e lamenta-se o fado português
apesar das palmas desde Lisboa
a Torres e à tua Silveira
onde tens repouso em boa hora.
Que palmas, que louvores
merece aquele que rola,
trepa, sua e vence.
Cedo passaste nos Campos Elíseos!
Os deuses ficaram de olho em ti,
mas o fado é indiferente ao merecimento.
Todavia, é clássico, os deuses chamam
bem cedo os que mais amam.
JM 1984
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Brinquedo
Tive outrora um brinquedo
simples hoje bem apetecido
sem algum medo corei ao vê-lo
por ser tão luzente e tão polido.
Banhavam-no laivos de inocência
como um burro calmo e velho
não tinha de hoje a consciência
e foi-se-me sem querer o brinquedo.
Gastou-se. O seu brilho perene e dourado
é relíquia hoje.
Ah brinquedo tantas vezes ansiado
recordação latente do longe.
JM 87
simples hoje bem apetecido
sem algum medo corei ao vê-lo
por ser tão luzente e tão polido.
Banhavam-no laivos de inocência
como um burro calmo e velho
não tinha de hoje a consciência
e foi-se-me sem querer o brinquedo.
Gastou-se. O seu brilho perene e dourado
é relíquia hoje.
Ah brinquedo tantas vezes ansiado
recordação latente do longe.
JM 87
Música
A realidade transformada
em sons que compassam
cada bater do coração
e de nota em nota
busca imprevista canção.
Agora mesmo ouvimos
os acordes iniciais
do Hotel Califórnia
e procuramos clandestinos
roubar horas ao dia.
Lembras-me aquela máquina
do salão de jogos junto ao Liceu,
refúgio nos furos,
e a moeda na ranhura mágica
já anuncia os sons futuros.
Ergues-te e o espelho
dá-me as melodias do teu corpo
húmidas, quentes, evaporadas.
Vivemos assim neste sopro
como num conto de fadas.
Jorge Marrão
22/01/2010
Feito enquanto os alunos do 8º B faziam composição. Prometi-lhes que escreveria também. Saiu este.
em sons que compassam
cada bater do coração
e de nota em nota
busca imprevista canção.
Agora mesmo ouvimos
os acordes iniciais
do Hotel Califórnia
e procuramos clandestinos
roubar horas ao dia.
Lembras-me aquela máquina
do salão de jogos junto ao Liceu,
refúgio nos furos,
e a moeda na ranhura mágica
já anuncia os sons futuros.
Ergues-te e o espelho
dá-me as melodias do teu corpo
húmidas, quentes, evaporadas.
Vivemos assim neste sopro
como num conto de fadas.
Jorge Marrão
22/01/2010
Feito enquanto os alunos do 8º B faziam composição. Prometi-lhes que escreveria também. Saiu este.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Fraga da Corvaceira
Espero na fraga e avisto a leveza
dos pássaros, a dureza das pedras,
o rumor das águas, a sombra do vale,
as curvas da estrada.
O contorno crepuscular dos montes
exala perfumes multiplicados
pelos nadas que me visitam,
mas não os posso agarrar.
Imagino-me sentado a contemplar
a flexibilidade dos vimes
arqueados sobre as águas
que descerão até ao infinito...
E, da gruta da fraga, o ecoar
dos murmúrios das mouras encantadas,
como nas lendas ditas, à espera
da palavra mágica, fascina-me.
Mas não ouso entrar porque tenho
encontro marcado com a minha Circe.
Espero-a aqui na fraga e sei que virá
saltitando de nuvem em nuvem.
Descerá num raio de sol restante
e juntos passaremos, fraga, ficarás tu
por cá a olhar a estrada
adormecida pelo ribeiro cantante.
JM
Este surgiu de uma brincadeira entre amigos. Combinámos fazer versos a sítios da aldeia. Sempre me fascinou a gruta da Fraga da Corvaceira, lugar onde os corvos faziam os nihos. Está situada num vale junto ao ribeiro da Sapeira. De um lado do vale a fraga, do outro, na parte soalheira, a estrada. Foi iniciado na Adega do António Centeno. Histórias, copos, noites....Não é o original. Talvez seja de 1980/81, mas foi retocado várias vezes até 85?, altura que tinha tempo livre, lia, ecrevia, cinema, encontros e desencontros... A Circe também era outra.
dos pássaros, a dureza das pedras,
o rumor das águas, a sombra do vale,
as curvas da estrada.
O contorno crepuscular dos montes
exala perfumes multiplicados
pelos nadas que me visitam,
mas não os posso agarrar.
Imagino-me sentado a contemplar
a flexibilidade dos vimes
arqueados sobre as águas
que descerão até ao infinito...
E, da gruta da fraga, o ecoar
dos murmúrios das mouras encantadas,
como nas lendas ditas, à espera
da palavra mágica, fascina-me.
Mas não ouso entrar porque tenho
encontro marcado com a minha Circe.
Espero-a aqui na fraga e sei que virá
saltitando de nuvem em nuvem.
Descerá num raio de sol restante
e juntos passaremos, fraga, ficarás tu
por cá a olhar a estrada
adormecida pelo ribeiro cantante.
JM
Este surgiu de uma brincadeira entre amigos. Combinámos fazer versos a sítios da aldeia. Sempre me fascinou a gruta da Fraga da Corvaceira, lugar onde os corvos faziam os nihos. Está situada num vale junto ao ribeiro da Sapeira. De um lado do vale a fraga, do outro, na parte soalheira, a estrada. Foi iniciado na Adega do António Centeno. Histórias, copos, noites....Não é o original. Talvez seja de 1980/81, mas foi retocado várias vezes até 85?, altura que tinha tempo livre, lia, ecrevia, cinema, encontros e desencontros... A Circe também era outra.
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