segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Gaitada

Tiro liro liro
tiro liro liro
fole de gaiteiro
comprei uma gaita
fiquei sem dinheiro

Fiquei sem dinheiro
mas fiquei contente
toca minha gaita
p'ra tod'esta gente
tiro liro liro
tiro liro liro

P'ra tod'esta gente
toca minha gaita
livre d'arrelias
toca no labor
festas e romarias
tiro liro liro
tiro liro liro

Festas e romarias
toca minha gaita
o pulmão não cansa
gosto da gandaina
todo o povo dança
tiro liro liro
tiro liro liro

Todo o povo dança
olha p'ro velhote
esperava a morte
com esta gaitada
tirou o capote
tiro liro liro
tiro liro liro

Tirou o capote
olha a ti Maria
como ela pula
tinha dor ciática
gaita santa cura
tiro liro liro
tiro liro liro

Gaita santa cura
vai de povo em povo
de som elegíaco
aliviando dores
esta minha gaita
melhor que doutores
tiro liro liro
tiro liro liro

Melhor que doutores
o fole é de pele
e haja pulmão
à frente as palhetas
atrás o bordão
tiro liro liro
tiro liro liro

Atrás o bordão
para se tocar
haja homem de beiço
fino de ouvido
e ágil de mãos
tiro liro liro
tiro liro liro

Jorge 1986

sábado, 28 de novembro de 2009

Mulher

Ergue-se, luta e sorri ao nosso lado
Como a cana suporta a espiga já madura
E apetecida…
É delicado tocar-lhe, mas retribui-se com ou sorriso.

JM

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Inocência

Dedico aos jovens palestinianos e judeus.
Foi escrita, esboçada, após ter lido
uma entrevista de um médico palestiniano exilado.


Os melros acasalam e os tordos queremos imitar.
Há ninhos e ovos frescos nos silveiros
E espreitamos as fêmeas a chocar.
Passamos pela sebe entrelaçada, ainda o sol aquece.
De mão dada com a tarde caminhamos:
O sol cederá lugar no trono, breve, à irmã lua.
Olhamos intensamente e sorvemos, livres, o derradeiro sol
E o prateado luar nascente.

Foi para isso que os deuses nos fizeram.

Nesse tempo,
Da guerra não conhecíamos, ainda, o horror,
Nem dos massacres em parte incerta.
Sabíamos apenas dos melros, dos tordos, dos ninhos
E ovos.
Essa paz queríamos imitar.

JM 1982

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Cesário Verde

Quando te conheci
Tinhas uma banca na praça
E vendias fruta de mil cores,
Pedi pêssegos e achaste graça
Por ter pedido algumas flores.

Comprei-as descuidado
Sem saber a quem as ofertar,
Esperando que alguém as pudesse merecer,
Mas o peso abonado deu para entender
Que a ti as flores havia d'entregar.

Experimentei também as uvas,
Enquanto tuas faces cor de ginja sorriam
E distraído apreciava as tuas madeixas
Que com a cor dos olhos condiziam:
Grandes, agudos e ovais como as ameixas.

E se pudesse comprar fiado
P'ra satisfazer os caprichos da ansiedade,
Comprava-te toda a fruta da banca,
Arrumavas e escrevias: "Fechado",
P'ra passear contigo pela cidade.

Já dava na Sé o meio-dia,
E tu, que prometeras, sem aparecer,
Outras dardejavam-me com olhares
E passavam velozes, sem vagares
P'ra perguntar o que estava a acontecer.

De súbito entravas na igreja,
Sem saber quem disso havia curado,
Trazias o teu corpo de fruta perfumado
E o tal ramo de flores mimosas
Que às dardejantes fazia inveja.

Se ao menos fosse verdade...
Mas não! Que pensamento o meu?
Batia a uma hora e eu ali especado
A ser cada vez mais dardejado,
À espera daquilo que nunca aconteceu.

Marrão 82

O Pomar de Barreiros

Feliz aquele que planta o pomar
Na esperança de colher os frutos,
Ou que alguém os venha a colher.
Feliz quem cava, monda e rega.
Feliz quem poda, limpa e enxerta
Com vontade de melhorar as castas.

Eis então chegada a Pimavera:
Gomos, folhas, flores e frutos tenros
Brotam como se a vida acabasse de nascer
E ficasse assim até à eternidade...
No silêncio quente da encosta soalheira.
A imensidão de horizonte que banha
O Pomar de Barreiros e a nós,
No fim dum entardecer setembrino,
Torna-nos donos do mundo, a ti e a mim:
Tu colhes, no meio das macieiras, maçãs
Rubras, doces, perfumadas e reboludas;
Eu aprecio os teus gestos e aceito
Atentamente.

Foi assim à beira do poço,
Debaixo da sombra dos salgueiros,
Que falámos de sonhos por sonhar...
Esquecemos que havia passado e futuro.
O Pomar de Barreiros é maior
Que o Éden, pois ninguém ousou
Interromper a nossa colheita,
Nem proibir o que quer que fosse.
Podíamos ali, naquele idílico lugar,
Sem restrições, comer e saborear
Inocentemente.

Oh! quão felizes fomos eu e tu, Eva!
Mais do que quem plantou,
Cavou, mondou e regou;
Mais, mas muito mais felizes
Do que o podador e o enxertador,
A quem muita estima dirigimos.
Mas fomos nós, eu e tu, a colher os frutos
Do Pomar de Barreiros, por isso
Sentimo-nos mais felizes do que os deuses.


JM 87


Elegia II

Ao Manuel Inácio,
Falecido tragicamente em 2 de Setembro de 1986

Regressado a ti, terra natal,
Depois de algum tempo de ausência,
Quero, como é costume antigo
E legados dos nossos antepassados,
Aproveitar para, mais uma vez
Em campo santo, prestar homenagem
A um amigo que só um instante
Nos separa.

Quão cedo quiseram tragicamente
Roubar-te do convívio?
Cedo quiseram arrefecer o fulgor
Da auréola dos vinte e três anos,
Com a dádiva feita à terra fria?
Mas se, por um lado, dói esta partida,
Que ausência sempre dor causou,
Não é menos real teres vantagem
Sobre nós que aqui na terra obramos:
Gozas já das delícias do além,
Enquanto nós ainda esperamos.
Amen.

JM

Babe, 12 de Julho 1987

Elegia I

Vinha curvo pela tarde caminhando
Por um carreiro umbroso, escuro.
Os sinos em acordes iam tocando

Talvez por um amigo ou familiar
Que foi chamado a contas com o eterno,
Ainda moço, ao derradeiro lar.

E nesse agre silêncio de morte
Que atravessava frio corpo e alma,
Lastimava em vão de quem fosse a sorte...

Que triste ter de entregar a vida!
Pior é que ainda nos surpreende,
Desde imemoriáveis tempos garantida.

É que a surpresa não está na sombra,
Mas nela: ensombra uns e colhe outros,
E ninguém é senhor da sua hora.

Marrão 86